Refugiada congolesa participa de disputa no The Voice Brasil

Isabel (centro) se apresenta com o Coral Somos Iguais, ao lado de outras jovens em situação de refúgio no Brasil. Foto: Bruna Treme.

Isabel (centro) se apresenta com o Coral Somos Iguais, ao lado de outras jovens em situação de refúgio no Brasil. Foto: Bruna Treme.

Forçada a deixar a República Democrática do Congo (RDC) com sua família em 2015 devido à guerra, Isabel Antonio, de 16 anos, nunca imaginou que seria a primeira solicitante de refúgio no país a fazer parte de um dos maiores shows de talentos musicais do mundo. Atualmente, ela disputa as etapas finais do The Voice Brasil com o apoio de seu técnico, Carlinhos Brown.

Quem acompanha o programa, exibido pela Rede Globo, reconhece o potencial de Isabel. Com sua voz doce, ela conectou todos à sua história. Na última apresentação, Isabel mais uma vez marcou presença ao cantar “Heal the World”, de Michael Jackson. Segundo ela, essa música representa paz, uma mensagem de um mundo melhor, uma possibilidade de pôr fim aos conflitos, preconceitos e males do planeta.

Dois anos atrás, Isabel, ao lado de sua irmã mais nova, perderam-se de seus pais na trajetória de fuga da violência. Com a ajuda de missionárias que estavam no país, ela e sua irmã chegaram a São Paulo. Os pais foram localizados posteriormente e a família passou a estar completa novamente.

Devido aos conflitos que a RDC enfrenta, Isabel diz querer voltar ao país apenas como turista. De acordo com dados recentes da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), já são mais de 495 mil refugiados congoleses que se concentram em países como Uganda, Ruanda, Tanzânia, Burundi e Quênia,

Foi no Brasil que o potencial e talento musical de Isabel floresceram. No abrigo em que vivia em São Paulo, ela costumava conversar com suas amigas sobre cantores quando então conheceu o coral “Somos Iguais”. O grupo, apoiado pelo ACNUR, é coordenado por Daniela Guimarães e conta com a orientação do maestro João Carlos Martins.

A participação de Isabel no coral foi essencial para que ela fosse aceita no The Voice Brasil. O projeto ficou conhecido em 2016 quando as crianças se apresentaram para o Especial de Natal do Programa Fantástico, também da Rede Globo. Depois disso, cinco crianças foram selecionadas para realizar um teste para o The Voice Brasil e, ao final, Isabel foi a única selecionada.

Isabel descobriu que sua voz pode ser uma forma de conscientizar as pessoas sobre a causa do refúgio, mostrando que refugiados também têm sonhos, necessidades e habilidades como qualquer pessoa. Para ela, a experiência proporcionada pelo coral foi fundamental para atingir o objetivo de avançar no programa e também de se integrar no Brasil.

“Com a música, quero transmitir uma mensagem boa, que toque nos corações das pessoas. Quero que vejam que pessoas refugiadas possuem necessidades, como estudar, mas que nem sempre temos oportunidades. Devemos dividir o que temos”, disse ela.

Isabel contou que, no começo, sua adaptação ao Brasil foi difícil. Ela disse ter enfrentado preconceito e, já participando do coral, conheceu pessoas que a apoiaram e a fizeram se sentir parte da comunidade.

Para Daniela Guimarães, a participação da Isabel no programa é, sobretudo, uma porta que se abre a todas as crianças refugiadas do mundo.

“Como idealizadora do coral, estou muito emocionada com a oportunidade que a Isabel teve. Independentemente do resultado, acho que ela está representando as vozes das crianças do coral, que de alguma forma busca representar em suas mensagens todas as crianças refugiadas que estão espalhadas pelo mundo”, disse Daniela.

O coral “Somos Iguais” é composto por crianças da Angola, da República Democrática do Congo e da Síria. Entre os ensaios de músicas eruditas e clássicas, essas vozes representam vidas e sonhos de milhões de refugiados no mundo. Todos os sábados, cerca de 25 crianças se juntam a Daniela para ensaiar.